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A tragédia na escola de Suzano e o sensacionalismo com os velhos bodes expiatórios

A tragédia na escola de Suzano e o sensacionalismo com os velhos bodes expiatórios

Desespero dos alunos após tiros em escola de Suzano

Deve ser desagradável até para um jornalista, que acredita no seu dever de informar, ter que escrever sobre um massacre escolar como esse que ocorreu ontem, no dia 13 de março de 2019, então teria preferido me limitar a acompanhar essa lamentável tragédia que destruiu inúmeras famílias e vai marcar por décadas a comunidade da cidade de Suzano, em São Paulo. Dois assassinos cujos nomes não deveriam ser citados por qualquer meio de comunicação, pois parte do que motiva esse tipo de crime é a notoriedade pós morte, atiraram em funcionários e alunos, e se mataram logo em seguida. A razão para eu escrever esse post, e você estar lendo ele em um blog de um canal de cultura geek, é porque mais uma vez estamos vendo a tentativa de culpabilizar os games, no caso os “jogos violentos”, como o principal influenciador para esse tipo de crime. 

Esse sensacionalismo é mais do que apenas irresponsável e preconceituoso, ele é profundamente desrespeitoso com as vítimas diretas desse crime terrível, e ofensivo para a inteligência e dignidade de uma sociedade que merece um verdadeiro debate sobre esse problema, que proporcione medidas efetivas para que ele seja tratado.

E está longe de ser uma novidade, os vídeo games foram o bode expiatório pelo menos desde o massacre de Columbine em 99, e após ele essa prática se difundiu ao ponto de fazer a carreira de políticos como o Jack Thompson, que cunhou o termo “simuladores de assassinatos” ao acusar o grande vilão na época, o GTA, de ser isso. 

Mas se em 99 ainda havia algum espaço para essa prática, hoje ela se revela como absurda. A indústria dos games cresceu de forma vertiginosa desde então, hoje em dia é até difícil encontrar alguma pessoa até os 40 anos que não jogue ou pelo menos já tenha jogado por um bom tempo algum FPS de guerra, e muitos deles foram até elevados à categoria de Esporte eletrônico, com campeonatos com prêmios milionários que são acompanhados por milhões em todo o mundo. Há muito se foi a época em que os “jogos violentos de tiros” podiam ser acusados de formar criminosos, porque apenas os “garotos estranhos” da escola os jogavam. 

E isso está longe de ser um achismo, ou questão de opinião, pois ao longo desse período foram realizados diversos estudos buscando uma relação de causalidade entre o hábito de se jogar jogos violentos e o comportamento agressivo, e eles sempre foram inconclusivos. Por coincidência ontem mesmo foi publicado pela Royal Society Open Science um artigo científico confirmando que esse hábito não está relacionado com o comportamento agressivo de adolescentes. A pesquisa entrevistou 1004 adolescentes britânicos, um número estatisticamente significativo para esse tipo de pesquisa. 

Infelizmente esse tipo de tragédia em particular é de uma irracionalidade tamanha que só serve para aumentar a nossa indignação diante dela, o que nos torna vítimas fáceis daqueles que estão mais que dispostos a apontar dedos para os jogos violentos, em certos casos por pura ignorância mesmo. No canal G1 temos a notícia que os cadernos dos assassinos tinham “táticas de combate”, que no caso é uma estratégia de Zerg rush do Starcraft. https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2019/03/13/cadernos-de-assassinos-de-suzano-tinham-taticas-de-jogo-de-combate-e-regras-de-conduta-na-escola.ghtml

A UOL pelo menos não polemizou com os games logo no seu título, mas fez menção às anotações dos cadernos que continham  táticas para o Garena Free Fire e Call of Duty. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/03/13/caderno-de-autor-do-massacre-em-suzano-tem-palavras-de-odio-e-amor-por-arma.htm

Podemos concordar que é papel do jornalista relatar as informações que recebe, e é verdade que o público nesse momento está para lá de ansioso para conhecer esses assassinos, então é discutível que esses escritos sobre jogos sejam relevantes. Mas também sabemos que um bom jornalista deve ter uma visão crítica sobre o seu trabalho, não dá pra sair entrevistando pessoas no instante da tragédia, e, acredito, insinuar de forma mais ou menos consciente que os assassinos foram influenciados nessa mentalidade criminosa pelos games, e até os usaram para treinar o crime. É realmente difícil, mas um bom jornalista precisa se refrear de traçar um perfil psicológico de um criminoso, por que isso acaba sendo muito revelador dos seus preconceitos. 

Por último, e mais grave, tivemos a declaração pós massacre por parte do vice-presidente da república de que “Temos que entender o porquê de isso estar acontecendo. Essas coisas não aconteciam no Brasil. Os jovens estão muito viciados em videogames violentos”. Isso é inadmissível e preocupante, por se tratar de uma figura pública num cargo tão elevado, logo abaixo do presidente. 

A comunidade gamer cresceu e mudou, já não é mais apenas um degrau para ser pisado por políticos ambiciosos. Vamos ver o que virá disso. 

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